Concerto reúne bandas tradicionais na Praça Saudades das Joias em Brumadinho

26 de janeiro de 2026

Espetáculo integrou os atos pelos 7 anos da tragédia-crime, reuniu 72 músicos no palco e marcou o ineditismo da união de corporações musicais centenárias do município

A Praça Saudades das Joias, em Brumadinho, foi tomada por música e emoção durante o concerto que integrou a programação dos atos pelos 7 anos da tragédia-crime da Vale. Em um espetáculo especial, regido pelo maestro Joanir Martins de Oliveira, 72 músicos ocuparam o palco montado no espaço público e deram vida a uma apresentação que reuniu diferentes gerações, histórias e tradições musicais do município e da região do Paraopeba.

Sob coordenação do músico e professor Aldo Bibiano, conhecido como Tidú, o concerto materializou um encontro raro entre bandas tradicionais de Brumadinho, muitas delas com mais de um século de existência. “Reunir essas bandas no mesmo palco tem um significado enorme. São corporações que atravessaram décadas, que formaram músicos, que fazem parte da identidade da cidade. Colocá-las juntas é afirmar que essa história continua viva”, afirmou Tidú.

O espetáculo teve origem no projeto Pelas Bandas do Paraopeba, idealizado pelo próprio coordenador, e contou com a participação da Banda Municipal Sarzedense, da Corporação Musical Nossa Senhora da Piedade, da Corporação Musical Santo Antônio de Suzana – Lira Suzanense, da Corporação Musical Nossa Senhora da Conceição – Banda de Brumadinho, da Corporação Musical Banda São Sebastião, da Corporação Musical Santa Efigênia e da Banda São José. O concerto também recebeu músicos convidados e alunos do projeto Música de Sarcilha, ampliando o alcance regional da apresentação.

O repertório variado dialogou com diferentes públicos e idades, transitando entre dobrados tradicionais, considerados verdadeiros hinos das bandas, como Dois Corações e Coronel Boogie, e arranjos populares que fazem parte do imaginário coletivo. O espetáculo contou ainda com a participação da cantora Irene Bertachini, que interpretou uma música composta especialmente para a ocasião, ampliando o caráter simbólico da apresentação. Obras de artistas internacionais, trilhas conhecidas do cinema e temas associados ao universo infantil dividiram espaço com músicas que evocam lembranças afetivas, o que manteve a atenção das centenas de pessoas que acompanharam o concerto do início ao fim.

“Pensamos em um repertório que estivesse no cotidiano das pessoas, que tocasse a memória de quem estava ali, sem perder a força da tradição das bandas”, explicou Aldo Bibiano. Segundo ele, a resposta do público confirmou a escolha. “A presença das famílias, das crianças, tudo isso mostrou que a música tem esse poder de reunir e acolher”, completou.

Além da dimensão artística, o concerto também foi marcado por homenagens que reforçaram o caráter simbólico do espetáculo. Durante a apresentação, foram prestadas homenagens à diretora da AVABRUM, Josiane Melo, cuja irmã, Eliane Melo, vítima da tragédia-crime, foi musicista da Banda de Brumadinho. Em outro momento, o público também reconheceu a trajetória de Maria Regina Silva, diretora da entidade, mãe de Priscila Elen, que também perdeu a vida na tragédia e integrou a banda do município.

Para Josiane Melo, a homenagem representou um gesto de reconhecimento coletivo. “Ver a música ocupar esse espaço, lembrando a trajetória da minha irmã e de tantas outras pessoas, mostra que elas seguem presentes na história da cidade. É uma homenagem que respeita a memória e transforma a dor em algo que também constrói”, afirmou.

A grandiosidade do espetáculo esteve não apenas no número de músicos ou na diversidade do repertório, mas no ineditismo da proposta. A união de várias bandas tradicionais em um único palco, em um contexto de memória e justiça, conferiu ao concerto um lugar singular na história cultural de Brumadinho. Para muitos moradores, foi a primeira vez que presenciaram esse encontro coletivo entre corporações que, ao longo dos anos, construíram trajetórias paralelas.

A apresentação contou ainda com a condução do professor Nery Braga, referência histórica da música local, responsável pela locução e contextualização das obras executadas, reforçando a ligação entre passado e presente.

Ao final do concerto, Maria Regina Silva destacou o significado do momento. “A música sempre fez parte da vida da minha filha e de tantas outras vítimas. Ver esse encontro acontecer, com respeito e força, mostra que a memória delas segue pulsando na cidade. Esse concerto não apaga a dor, mas reafirma nossa luta por justiça e dignidade”, declarou.

Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:

A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).

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