Terceiro dia de audiências no TRF6 expõe alertas ignorados pela Vale antes da tragédia-crime de Brumadinho 5 de março de 2026
Depoimentos trazem relatos que apontam omissões e sinais prévios de risco de rompimento da estrutura que matou 272 pessoas em 2019
O Tribunal Regional Federal da 6ª Região realizou, nesta segunda-feira (2/3), o terceiro dia de audiências de instrução do processo criminal que apura as responsabilidades pela tragédia-crime da Vale em Brumadinho. A fase concentra a produção de provas orais e é considerada estratégica para a definição do rumo da ação penal sobre o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em janeiro de 2019, que matou 272 pessoas.
Neste terceiro dia, três sobreviventes levaram ao plenário relatos que reforçam a gravidade da tragédia e revelam que uma série de sinais prévios de instabilidade na estrutura indicavam o risco iminente.
Fernando Henrique Barbosa Coelho, sobrevivente e filho de Olavo Henrique Coelho (63), morto no rompimento, trabalhou por 17 anos na Vale. Ele atuava no bombeamento de rejeitos da barragem e relatou que o pai, com mais de 40 anos de experiência na mineração, foi chamado com urgência para verificar um problema na barragem, em meados de 2018, e depois disso o alertou sobre a gravidade dos problemas estruturais. “Meu pai falou que a barragem estava condenada, me pediu para não ficar embaixo dela”, afirmou.
Segundo Fernando, havia registros de variações em drenos e piezômetros, além de intervenções recorrentes que classificou como tentativa de “maquiagem”. Ele também destacou que a sirene não funcionou e que o restaurante, onde seu pai almoçava, ficava na área mais vulnerável. “Ele morreu porque desceu para almoçar naquele dia”, disse. O corpo de Olavo foi localizado cerca de sete dias depois.
Deivid Arlei Almeida, à época com 22 anos, morava a cerca de 100 metros da barragem. Caseiro de uma fazenda vizinha à mina, ele não estava em casa no momento do rompimento. Sua esposa, então com 19 anos, ficou presa sob os escombros. “Gastamos cerca de uma hora para retirá-la. Ela ficou soterrada da cintura para baixo”, relatou.
A jovem sofreu perfurações e ainda convive com dores constantes. Segundo Deivid, não houve qualquer alerta sonoro. “Ela não escutou sirene, só um barulho como se fosse uma carreta tombando”, relembra. O casal precisou deixar o local, e viveu meses de incerteza até conseguir nova fonte de renda. “Foi uma grande reviravolta”, afirmou.
Já Sebastião Gomes, que trabalhou na Vale de 2010 a 2019, como operador de saneamento ambiental, esteve muito próximo de ser engolido pela lama. Ele foi salvo depois de conseguir subir em uma caminhonete que por muito pouco não foi tragada pelo rejeito. “Ouvi várias pessoas gritando e corri. Ainda não tenho explicação para o fato de termos sobrevivido”, relembrou bastante emocionado.
Sebastião declarou que, em dez anos de empresa, nunca participou de treinamento eficaz para rompimento de barragem. “Algo que poderia ter sido evitado se tivessem investido em mais tecnologia. Foi uma tragédia motivada por ganância.” Após o desastre, enfrentou tratamento psicológico por meses para conseguir voltar a dormir. “A tragédia nunca saiu da minha cabeça.”
Ao final da audiência, a presidenta da AVABRUM, Nayara Porto, fez um balanço contundente do andamento das oitivas. Ela afirmou que os depoimentos reforçam a percepção de que havia conhecimento prévio dos riscos. “Cada vez fica mais evidente que eles sabiam do rompimento da barragem e deixaram os nossos lá para morrer. É revoltante”.
Nayara destacou que estar presente nas sessões é um dever coletivo. “A gente sabe da necessidade de estar aqui. Nossa briga sempre foi por justiça. Ver as audiências avançarem traz alívio, mas também revolta ao confirmar o que já imaginávamos”, conclui.
As oitivas integram uma série de sessões destinadas à escuta de sobreviventes, familiares e testemunhas diretamente atingidas. O objetivo é consolidar elementos que contribuam para o julgamento dos acusados. As audiências tiveram início na semana passada e seguem conforme o cronograma fixado pelo tribunal. Na próxima sexta-feira (6/3), serão ouvidos outros três sobreviventes da tragédia-crime.
Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:
A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).
Depoimentos trazem relatos que apontam omissões e sinais prévios de risco de rompimento da estrutura que matou 272 pessoas em 2019
O Tribunal Regional Federal da 6ª Região realizou, nesta segunda-feira (2/3), o terceiro dia de audiências de instrução do processo criminal que apura as responsabilidades pela tragédia-crime da Vale em Brumadinho. A fase concentra a produção de provas orais e é considerada estratégica para a definição do rumo da ação penal sobre o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em janeiro de 2019, que matou 272 pessoas.
Neste terceiro dia, três sobreviventes levaram ao plenário relatos que reforçam a gravidade da tragédia e revelam que uma série de sinais prévios de instabilidade na estrutura indicavam o risco iminente.
Fernando Henrique Barbosa Coelho, sobrevivente e filho de Olavo Henrique Coelho (63), morto no rompimento, trabalhou por 17 anos na Vale. Ele atuava no bombeamento de rejeitos da barragem e relatou que o pai, com mais de 40 anos de experiência na mineração, foi chamado com urgência para verificar um problema na barragem, em meados de 2018, e depois disso o alertou sobre a gravidade dos problemas estruturais. “Meu pai falou que a barragem estava condenada, me pediu para não ficar embaixo dela”, afirmou.
Segundo Fernando, havia registros de variações em drenos e piezômetros, além de intervenções recorrentes que classificou como tentativa de “maquiagem”. Ele também destacou que a sirene não funcionou e que o restaurante, onde seu pai almoçava, ficava na área mais vulnerável. “Ele morreu porque desceu para almoçar naquele dia”, disse. O corpo de Olavo foi localizado cerca de sete dias depois.
Deivid Arlei Almeida, à época com 22 anos, morava a cerca de 100 metros da barragem. Caseiro de uma fazenda vizinha à mina, ele não estava em casa no momento do rompimento. Sua esposa, então com 19 anos, ficou presa sob os escombros. “Gastamos cerca de uma hora para retirá-la. Ela ficou soterrada da cintura para baixo”, relatou.
A jovem sofreu perfurações e ainda convive com dores constantes. Segundo Deivid, não houve qualquer alerta sonoro. “Ela não escutou sirene, só um barulho como se fosse uma carreta tombando”, relembra. O casal precisou deixar o local, e viveu meses de incerteza até conseguir nova fonte de renda. “Foi uma grande reviravolta”, afirmou.
Já Sebastião Gomes, que trabalhou na Vale de 2010 a 2019, como operador de saneamento ambiental, esteve muito próximo de ser engolido pela lama. Ele foi salvo depois de conseguir subir em uma caminhonete que por muito pouco não foi tragada pelo rejeito. “Ouvi várias pessoas gritando e corri. Ainda não tenho explicação para o fato de termos sobrevivido”, relembrou bastante emocionado.
Sebastião declarou que, em dez anos de empresa, nunca participou de treinamento eficaz para rompimento de barragem. “Algo que poderia ter sido evitado se tivessem investido em mais tecnologia. Foi uma tragédia motivada por ganância.” Após o desastre, enfrentou tratamento psicológico por meses para conseguir voltar a dormir. “A tragédia nunca saiu da minha cabeça.”
Ao final da audiência, a presidenta da AVABRUM, Nayara Porto, fez um balanço contundente do andamento das oitivas. Ela afirmou que os depoimentos reforçam a percepção de que havia conhecimento prévio dos riscos. “Cada vez fica mais evidente que eles sabiam do rompimento da barragem e deixaram os nossos lá para morrer. É revoltante”.
Nayara destacou que estar presente nas sessões é um dever coletivo. “A gente sabe da necessidade de estar aqui. Nossa briga sempre foi por justiça. Ver as audiências avançarem traz alívio, mas também revolta ao confirmar o que já imaginávamos”, conclui.
As oitivas integram uma série de sessões destinadas à escuta de sobreviventes, familiares e testemunhas diretamente atingidas. O objetivo é consolidar elementos que contribuam para o julgamento dos acusados. As audiências tiveram início na semana passada e seguem conforme o cronograma fixado pelo tribunal. Na próxima sexta-feira (6/3), serão ouvidos outros três sobreviventes da tragédia-crime.
Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:
A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).
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