Depoimentos em segundo dia de audiências no TRF6 expõem impactos permanentes de tragédia-crime da Vale em Brumadinho
5 de março de 2026
Testemunhos evidenciam consequências sociais, emocionais e coletivas que persistem após sete anos
Familiares das vítimas da tragédia-crime da Vale em Brumadinho participaram, nesta sexta-feira (27/2), do segundo dia das audiências de instrução do processo criminal que apura as responsabilidades pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, responsável pela morte de 272 pessoas. A sessão deu continuidade à fase de produção de provas orais, considerada decisiva para o avanço do processo rumo ao julgamento dos acusados.
Nesta etapa prestaram depoimento Nayara Cristina Dias Porto, esposa de Everton Lopes Ferreira (32), operador de empilhadeira que trabalhou por oito anos na Vale; Juliana Cardoso Gomes Silva, nora de Levi Gonçalves da Silva (59), trabalhador terceirizado que atuava há cerca de sete anos dentro do complexo minerário; e Josiana de Souza Resende, irmã de Juliana Creizinar de Resende Silva (33), funcionária da empresa com 11 anos de atuação.
As audiências integram o cronograma judicial que prevê 76 sessões até maio de 2027, com oitivas de familiares, sobreviventes, especialistas e interrogatórios dos réus denunciados por homicídio qualificado. O processo busca responsabilizar a Vale, a certificadora alemã TÜV SÜD e 15 pessoas físicas por decisões e omissões que antecederam o rompimento.
Antes do início da audiência, dezenas de familiares e apoiadores se concentraram na porta do TRF6 em um ato por justiça. Com placas, faixas, palavras de ordem e gritos transmitidos por carro de som, os manifestantes transformaram a entrada do tribunal em espaço de memória e mobilização coletiva. A manifestação contou ainda com o apoio de indígenas da Aldeia Katurãma, localizada em São Joaquim de Bicas e formada por integrantes dos povos Pataxó e Pataxó Hã-Hã-Hãe.
Dentro do tribunal, ao falar sobre Everton Ferreira, mais conhecido como Tom, Nayara Porto descreveu mudanças de comportamento do marido nos meses que antecederam o rompimento. Segundo ela, o trabalhador passou a demonstrar preocupação crescente com o ambiente de trabalho, apesar de nunca relatar fatos sobre riscos relacionados à Mina do Feijão. “Ele disse uma vez que, se aquela barragem rompesse, mataria todo mundo ali embaixo. Depois disso ficou diferente, mais preocupado, como se algo estivesse errado”, afirmou.
Nayara relatou ainda o impacto imediato da tragédia em sua vida pessoal e financeira, agravado pela ausência de apoio inicial da empresa. “Além de matarem meu marido, rasgaram minha certidão de casamento. Fiquei meses sem saber como pagar as contas. Hoje tenho conforto material, mas nada disso tem alegria. O que eu queria era meu marido comigo”, disse. Segundo ela, o rompimento transformou permanentemente sua trajetória. “Somos pessoas adoecidas. Tomo remédios todos os dias para conseguir seguir.”
Juliana Cardoso Gomes Silva recordou a rotina simples de Levi Gonçalves da Silva, auxiliar de limpeza de vagões e produtor rural comunitário conhecido pela convivência próxima com vizinhos e familiares. Ela afirmou que comentários sobre riscos circulavam entre trabalhadores e moradores, mas sem qualquer dimensão real do perigo. “Falava-se em vazamentos, mas ninguém imaginava o tamanho do que poderia acontecer”, relatou.
O corpo de Levi foi localizado apenas em abril de 2019, identificado a partir de fragmentos. A despedida, como em diversos outros casos, ocorreu com caixão fechado. Juliana descreveu os efeitos prolongados do rompimento sobre a saúde da família. “Meu marido desenvolveu depressão e nunca mais conseguiu trabalhar na mineração. Meus filhos fazem tratamento psicológico. A comunidade acabou. A vida que escolhemos construir ali foi retirada de nós”, lamentou.
Juliana também relatou que, após o rompimento, moradores de Córrego do Feijão passaram a enfrentar medo coletivo de contaminação e episódios de preconceito, com pessoas evitando contato e desconfiando até dos alimentos produzidos na região, situação que aprofundou o isolamento social da comunidade já devastada pela perda humana.
Perda dupla
Josiana de Souza Resende apresentou relato marcado pela perda dupla. Além da irmã Juliana Creizinar de Resende Silva, responsável pelo Centro de Descarte de Material da Vale, também morreu o cunhado Denis Augusto da Silva (37), ligado à área de engenharia. O casal deixou filhos gêmeos de dez meses, hoje criados pelos avós. Ao relembrar o período das buscas, ela destacou o desespero vivido pela família diante da ausência de respostas e da longa espera pela identificação. “Se pudéssemos, a gente até cavaria o chão com as mãos para encontrar ela”, afirmou, ao descrever a angústia que marcou os dias seguintes ao rompimento.
Ela contou que a irmã nunca recebeu comunicação oficial sobre riscos estruturais e que a família passou quase três anos aguardando a identificação do corpo. “Foram 942 dias de espera. A vida muda completamente para quem fica. Datas comemorativas deixam de existir e surgem outras ligadas à dor, como o dia em que encontramos o corpo”, disse.
Após os depoimentos, a vice-presidenta da AVABRUM, Maria Regina Silva, afirmou que ouvir os relatos representa reviver coletivamente o trauma vivido pelas famílias, mas destacou a importância da etapa judicial. “É muito difícil escutar tudo novamente porque traz de volta o momento mais doloroso das nossas vidas. Ainda assim, sabemos que é necessário falar e ser ouvido para que as provas sejam construídas e os responsáveis sejam responsabilizados”, declarou.
O advogado Danilo Chammas, do Instituto Cordilheira, que representa a AVABRUM como assistente de acusação, afirmou que os depoimentos reforçam o caráter humano do processo e a relevância da fase de instrução. “Essas audiências permitem reconstruir os fatos a partir das histórias de quem viveu as consequências diretas do rompimento. É a etapa que consolida as provas necessárias para que a Justiça reconheça as responsabilidades e leve os acusados a julgamento pelo Tribunal do Júri”, concluiu.
Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:
A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).