Carreata e cerimônia religiosa reforçam cobrança por justiça pelas 272 vítimas de Brumadinho
25 de janeiro de 2026
Ato integrou a semana dos 7 anos da tragédia-crime da Vale e reuniu dezenas de veículos no centro da cidade
A semana que marcou os sete anos da tragédia-crime da Vale em Brumadinho foi construída a partir de uma ampla agenda de mobilização social, com atos públicos, ações simbólicas, encontros políticos, atividades culturais e momentos de reflexão coletiva. Dentro dessa programação, a carreata realizada no sábado e a cerimônia religiosa em Córrego do Feijão ocuparam lugar central por assumirem caráter explícito de denúncia da impunidade e de pressão pública por responsabilização criminal, ao transformar ruas e espaços de fé em territórios de memória, respeito e cobrança por justiça.
A carreata reuniu dezenas de veículos que percorreram as principais vias do centro de Brumadinho, formando um longo cortejo conduzido por um carro de som. Do alto dele, as diretoras da AVABRUM, Nayara Porto, Jacira Francisca e Maria Regina Silva conduziram palavras de ordem e discursaram em alto e bom som para a população da cidade. As falas evidenciaram a ausência de punições proporcionais à gravidade do crime, questionaram a lentidão dos processos judiciais e reafirmaram que a responsabilização da Vale permanece como uma dívida aberta com as famílias e com a sociedade.
Para Nayara Porto, a escolha pela ocupação das ruas teve papel estratégico dentro da semana de mobilização. “A carreata rompe o silêncio e leva a memória para além dos espaços formais. Ela alcança quem está em casa, no comércio ou em trânsito, ao lembrar que o crime atravessou toda a cidade e segue sem resposta à altura”, afirmou.
O trajeto contou com paradas em pontos simbólicos do município, entre eles o cemitério municipal, onde estão sepultadas algumas das vítimas da tragédia-crime. O momento foi marcado por silêncio e respeito. Ao longo do percurso, moradores saíram às portas e janelas em sinal de apoio, muitos deles aplaudindo a passagem do cortejo, gesto que evidenciou o reconhecimento da luta das famílias atingidas.
Jacira Francisca destacou o significado dessa resposta popular durante o ato. “Quando a população para para observar e aplaudir, ela demonstra que entende a dimensão da dor e reconhece a legitimidade dessa luta. Esse apoio público sustenta a nossa permanência na cobrança por justiça”, declarou.
A chegada ao Córrego do Feijão foi recebida com aplausos da comunidade local, que aguardava o cortejo como demonstração de acolhimento e respeito. O gesto simbolizou a convergência entre a mobilização pública e a dor vivida no território mais diretamente atingido pela tragédia-crime. No distrito, a programação seguiu com um momento de forte simbolismo religioso e cultural. A imagem de Nossa Senhora da Abadia foi conduzida até a Igreja Nossa Senhora das Dores, acompanhada por um cortejo da guarda de Moçambique, que levou cantos, tambores e expressões da religiosidade afro-brasileira ao interior do templo.
No interior da Igreja Nossa Senhora das Dores, foram rezadas 272 Ave-Marias em memória das vítimas da tragédia-crime. Cada oração representou uma vida interrompida e afirmou a fé como recusa ao esquecimento e como apelo ético por justiça. A cerimônia reuniu familiares, atingidos e moradores do distrito, em um ambiente marcado por emoção, silêncio e recolhimento.
Maria Regina Silva ressaltou que a espiritualidade também integra a luta por direitos e reconhecimento. “A cerimônia expressa a nossa recusa em tratar essas mortes como estatística. A memória se constrói também nesses espaços de fé, onde reafirmamos o valor de cada vida perdida”, afirmou.
Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:
A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).