Foto: Raul Mariano/AVABRUM

Audiências sobre a tragédia-crime de Brumadinho entram em fase técnica a partir da próxima sexta-feira (13/3) no TRF6

9 de março de 2026

Quinto dia de oitivas reuniu relatos de traumas permanentes e perda de meios de subsistência provocados pelo rompimento

A próxima audiência do processo criminal sobre a tragédia-crime da Vale em Brumadinho marcará uma nova etapa na fase de instrução. A partir da sessão prevista para sexta-feira (13/3), o Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), em Belo Horizonte, passará a ouvir testemunhas técnicas, responsáveis por apresentar análises especializadas sobre a dinâmica do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão.

A primeira depoente desta fase será a engenheira civil Maria Regina Moretti, que trabalhou na empresa POTAMOS. O testemunho deverá trazer informações detalhadas sobre o comportamento da estrutura e os fatores que contribuíram para o colapso da barragem. Por se tratar de um depoimento técnico, a expectativa é de uma exposição mais longa e com aprofundamento sobre aspectos estruturais do desastre.

A mudança ocorre após uma sequência de audiências dedicadas a ouvir sobreviventes e familiares das vítimas. Na sessão realizada na segunda-feira (9/3), o quinto dia de oitivas reuniu relatos marcados por lembranças do rompimento, perdas humanas e impactos sociais que persistem mais de seis anos após o crime que matou 272 pessoas.

Nos depoimentos, também ficou evidente que trabalhadores que atuavam na área de carregamento de minério estavam em um ponto sem qualquer possibilidade real de fuga. Segundo os sobreviventes, o local foi rapidamente cercado pela lama e a sobrevivência ocorreu apenas “por milagre”. Nem mesmo o Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM), documento que deveria orientar procedimentos de evacuação e proteção em caso de rompimento, explicava aos trabalhadores porque aquela área era considerada de alto risco.

Antes do início da audiência, apoiadores vindos de Angueretá, distrito de Curvelo, estiveram no tribunal para um ato de solidariedade às vítimas e familiares. O encontro reuniu orações e palavras de ordem por justiça e contou com a presença do Frei Gilvander Moreira.

Operador de equipamentos da Vale por mais de oito anos, Leandro Borges Cândido descreveu o momento em que percebeu que algo havia acontecido na mina. “Quando olhei ao fundo vi vagões voando, tipo um filme de terror. Avisei no rádio e a lama veio. Começou a entrar na máquina e me empurrou. Eu disse para Deus: vou morrer aqui”. Ele contou que foi retirado por colegas e ficou perturbado ao descobrir a morte de amigos. “Perguntei sobre os colegas e me disseram: ‘acabou’. Ali eu entrei em estado de choque”.

Leandro sofreu fraturas e rompeu ligamentos no dia do rompimento. As consequências permanecem até hoje. “Quebrei a perna, rompi ligamentos do joelho e do ombro. Ainda tomo remédios e estou aprendendo a conviver com essa dor”. Ele também criticou os treinamentos realizados pela empresa. “Eles mostravam rotas de fuga e tocavam sirene nos simulados. Mas na hora do rompimento a sirene não tocou e as rotas simplesmente não eram acessíveis. Não tínhamos para onde correr”.

Também sobrevivente, Elias de Jesus Nunes, empregado da Vale desde 2005, contou que estava próximo à barragem quando tudo aconteceu. “Só ouvi o barulho e vi um pouco de poeira. No começo pensei que fosse um descarrilhamento de trem”. Ele relatou que estava em uma caminhonete com um colega e que ambos começaram a rezar. “A lama veio, pegou o carro e fomos levados. Por um milagre, sobrevivemos”.

Elias afirmou que participou de treinamentos de segurança, mas disse que as orientações não seriam suficientes diante da velocidade do rompimento. “Mandavam seguir para pontos de encontro, mas tudo aconteceu muito rápido. Foi questão de segundos”. Ele também reforçou que não ouviu qualquer alerta sonoro. “A única orientação era que em caso de rompimento a sirene tocaria. Mas eu não ouvi sirene nenhuma”.

Moradora do Parque da Cachoeira na época do desastre, Soraia Aparecida Campos relatou os impactos sofridos pela comunidade rural após a chegada da lama. Agricultora por 25 anos, ela perdeu o modo de vida que sustentava a família. “Nossa forma de sobrevivência foi destruída. Hoje sou cozinheira porque não temos mais terra nem água adequadas para plantar”.

Soraia afirmou que moradores nunca receberam orientações sobre riscos ou rotas de fuga. “Nunca ouvimos sirene. Nunca fomos procurados para saber se existia algum risco”. Segundo ela, o rompimento provocou destruição generalizada. “Quando olhei só via lama. O córrego, as hortas e os maquinários foram destruídos”. Ela também relatou preocupação com possíveis impactos na saúde da população. “Faço exames com frequência para ver se há metais pesados no meu sangue. Não tenho palavras para explicar a gravidade disso”.

Jefferson Custódio Santos Vieira, que perdeu a avó e uma tia na tragédia, apresentou um depoimento marcado por lembranças do período de resgate e sepultamento das vítimas. “Quando cheguei à entrada do Córrego do Feijão não tinha mais nada. Só lama e restos de árvores. Ficamos ilhados, sem luz e sem água”.

Ele também relatou dificuldades enfrentadas pelas famílias para enterrar os mortos. “Minha avó foi enterrada em um saco de lixo. Achei uma das coisas mais tristes da minha vida. Não tivemos um mínimo de dignidade”. Jefferson afirmou que o luto permanece aberto. “Até hoje me sinto como se o ciclo não tivesse se fechado. É a maior das desumanidades e a maior das covardias”.

As audiências integram a fase de instrução do processo criminal que apura responsabilidades pelo rompimento da barragem da Vale em 25 de janeiro de 2019. A sequência de depoimentos reúne sobreviventes, familiares e, a partir da próxima sessão, especialistas técnicos que deverão contribuir para esclarecer as causas e circunstâncias do maior crime socioambiental da história do país.

Para o advogado da AVABRUM, Danilo Chammas, a expectativa é que a nova etapa do processo aprofunde a análise técnica sobre o colapso da estrutura. “Esperamos que as testemunhas a serem ouvidas reafirmem o que já declararam perante as polícias civil e federal e também nas CPIs, além de apresentarem ainda mais informações sobre as falhas técnicas nas avaliações sobre a barragem, os atos e as omissões dos réus que ocasionaram o colapso da estrutura e suas consequências”.

Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:

A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).

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