“Nenhuma sirene tocou”: sobreviventes relatam caos no rompimento da barragem da Vale em Brumadinho
9 de março de 2026
Depoimentos no TRF6 descrevem avanço abrupto da lama e falta de orientação entre trabalhadores atingidos pela tragédia-crime
O quarto dia de audiências de instrução do processo criminal sobre a tragédia-crime da Vale em Brumadinho ocorreu nesta sexta-feira (6/3), no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), em Belo Horizonte. A sessão ouviu dois sobreviventes do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, que relataram ausência de alerta sonoro, falhas graves nos protocolos de segurança e as consequências que persistem anos após o crime. O terceiro depoente previsto para a data, Leandro Borges Cândido, não compareceu por questões psicológicas e prestará depoimento na próxima segunda-feira, após decisão da magistrada responsável pelo caso.
Foto: Acervo TRF6
William Isidoro de Jesus, operador de equipamentos que prestou serviços para a Vale por 11 anos, descreveu o momento em que a onda de rejeitos atingiu a área operacional. Segundo ele, nenhum aviso foi emitido antes do rompimento. “Nos simulados as sirenes tocavam, mas no dia da tragédia-crime não. Ninguém nunca falou sobre os riscos que corríamos ali”, afirmou. William contou que operava uma carregadeira quando percebeu um vagão ser arrastado pela lama. Ao tentar escapar, a máquina em que estava foi atingida e tombou. “Saí de dentro dela e vi só aquele mar de lama”, relatou.
Ele também questionou a efetividade dos treinamentos promovidos pela mineradora. “Os treinamentos eram muito mais para enganar. Os pontos de apoio criados pela Vale foram todos atingidos pela lama”, declarou. Na equipe em que trabalhava havia cinco pessoas. Três morreram. William ajudou a desenterrar um colega logo após o rompimento.
Sete anos depois, o sobrevivente afirma que as consequências emocionais permanecem. “É um sofrimento que não passa. Você não esquece nunca. Hoje, se um helicóptero passa por cima já causa pânico”, disse. Ele relatou ainda que retornou ao trabalho apenas 90 dias após a tragédia e passou dois anos em acompanhamento psicológico.
Também prestou depoimento Waldson Gomes da Silva, motorista terceirizado da empresa Palmira. Ele contou que estava na área da ferrovia quando ouviu um estrondo e tentou buscar abrigo. “Ainda tentei entrar na caminhonete, mas voltei e subi em cima do caminhão. A lama veio arrastando tudo e fomos levados por cerca de dez metros”, afirmou.
Waldson reforçou que não houve qualquer aviso prévio. “Não houve nenhum alerta de sirene. Nunca tivemos treinamento de segurança”, disse. Segundo ele, mesmo que um alarme tivesse sido acionado, os trabalhadores não saberiam como agir. “Se a sirene tivesse tocado eu também não saberia o que fazer, pois nunca fomos informados.”
O motorista relatou que ficou ferido e precisou se afastar do trabalho por 30 dias. Assim como outros sobreviventes, também enfrenta consequências emocionais após o rompimento. “A gente lembra todos os dias da tragédia. Ver tanta gente morrer é algo que não se esquece”, afirmou.
Para a presidenta da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM), Nayara Porto, os depoimentos desta sexta-feira evidenciam a negligência da mineradora e desmontam a narrativa de segurança apresentada pela empresa. “Nenhum trabalhador ouviu qualquer sinal sonoro antes do rompimento. O que chegou até eles foi apenas o estrondo da barragem. Isso demonstra a negligência da empresa e o completo abandono das medidas de proteção”, afirmou.
Ela também questionou a efetividade das rotas de fuga indicadas pela empresa. “Quem correu para os pontos apontados acabou atingido pela lama. Em cerca de dois minutos tudo já estava tomado. Não havia tempo para escapar”, declarou.
O advogado da AVABRUM, Danilo Chammas, afirmou que os depoimentos apresentados ao longo das audiências confirmam conclusões já apontadas nas investigações. Segundo ele, os relatos revelam que os responsáveis pela barragem conheciam a gravidade da situação e deixaram de adotar medidas capazes de evitar as mortes. “Essas pessoas estão respondendo a este processo porque sabiam da condição crítica da barragem, tinham o dever e o poder de agir e escolheram ocultar essas informações dos trabalhadores, das comunidades e da sociedade”, afirmou.
As audiências fazem parte da fase de instrução do processo criminal que apura responsabilidades pelo rompimento da barragem da Vale, ocorrido em 25 de janeiro de 2019. Ao todo, uma série de oitivas foi programada para ouvir sobreviventes e familiares das vítimas da tragédia-crime, que deixou 272 mortos e devastou comunidades inteiras.
Segundo Chammas, os depoimentos apresentados até agora reforçam a gravidade das falhas de segurança e o impacto humano do crime. A expectativa das vítimas é que a fase de instrução avance sem interrupções e leve à responsabilização criminal dos envolvidos. “A sociedade espera que esse processo chegue ao fim com uma decisão clara sobre a responsabilidade pelas mortes e pelos danos causados”, concluiu.
Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:
A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).