Resistência e denúncia da impunidade marcam seminário pelos sete anos da tragédia-crime de Brumadinho 23 de janeiro de 2026
Debates que integram semana de atos pelos 7 anos da tragédia-crime da Vale reuniram familiares, acadêmicos e autoridades na Câmara Municipal de Brumadinho
Como parte da programação que marca os sete anos da tragédia-crime da Vale em Brumadinho, o Seminário Memória e Resistência por Justiça teve início nesta quinta-feira, dia 22, no auditório da Câmara Municipal. A atividade integra a semana de mobilização que já reuniu famílias atingidas e apoiadores em adesivaço, pedal, caminhada e abraço ao Córrego do Feijão.
A primeira mesa, “Da resistência à perseverança: a longa luta por justiça no Brasil”, foi conduzida por Kenya Lamounier, da diretoria da AVABRUM, e deu o tom político do encontro. Ao abrir o debate, Kenya afirmou que “é só no coletivo que a gente avança” e destacou que a união entre familiares de diferentes tragédias fortalece a luta. Em uma fala marcada pela denúncia da impunidade, definiu o cenário vivido pelas famílias como um tempo de ausência. “Não temos os nossos. Eles foram assassinados. Não temos justiça. Justiça, onde ela está? Queremos acreditar que exista, mas o que sentimos ainda é ausência.”
Na sequência, o desembargador Marcelo Pertence, do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, professor e mestre em Direito do Trabalho, trouxe uma leitura histórica sobre acidentes laborais e o papel da Justiça. Ele lembrou que o Brasil registra mais de 2.500 mortes de trabalhadores por ano e alertou que “quando se admite esse número, admite-se que tragédias ocorram”. Ao tratar da atuação institucional, afirmou que “a justiça nunca é tão justa quanto a gente imagina, mas o que não se pode admitir é que não se faça justiça”. Para Pertence, a Constituição de 1988 representou um marco ao afirmar a dignidade do trabalho, mas esse princípio ainda enfrenta resistência social. “A vida do trabalhador vale tanto quanto a do dono das ações da empresa”, disse, ao defender a preservação da vida como eixo de qualquer política de reparação.
Encerrando a mesa, a economista e professora Norma Valencio, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos, reconhecida por estudos sobre colapsos de barragens, gestão de riscos e impactos jurídicos, propôs uma mudança profunda na forma como a sociedade compreende esses eventos. Com quase 30 anos de pesquisa de campo, afirmou que “evento físico não é desastre; chuva não é desastre”. Para ela, desastres são “acontecimentos sociais que provocam uma forma súbita, inesperada e involuntária de sofrimento social” e resultam de omissões e negligências passíveis de enquadramento como crime. Norma alertou, ainda, que limitar o desastre à data do rompimento produz o apagamento da dor continuada. “O desastre não ficou em 2019. Ele é um processo de sofrimento social”, afirmou.
A segunda mesa do Seminário Memória e Resistência por Justiça, intitulada “Tragédias humanitárias e ambientais e estruturas que produzem impunidade”, aprofundou a reflexão sobre os mecanismos que permitem a repetição de crimes provocados pela mineração no Brasil. Conduzido por Edi Tavares, secretária da AVABRUM, o debate reuniu a professora Maria Fernanda Repolês, da Faculdade de Direito da UFMG e coordenadora do Programa Polos de Cidadania, e a advogada popular Gabriela Nabozny, doutoranda em Direito pela UFMG e pesquisadora de conflitos socioambientais.
Na abertura da mesa, Edi Tavares destacou o caráter contínuo da violência imposta às famílias atingidas. Ao lembrar que o seminário ocorre na Câmara Municipal, espaço onde a AVABRUM se constituiu como voz coletiva, afirmou que “essas tragédias-crime são continuadas” e que a dor “não para no dia do rompimento”. Para Edi, memória não é passado, mas compromisso com o futuro. “O silêncio e o esquecimento alimentam a repetição de crimes evitáveis”, disse, ao defender que fortalecer redes, produzir reflexão crítica e exigir justiça são deveres coletivos. Ela alertou que Mariana não impediu Brumadinho e questionou se novas sirenes voltarão a tocar em outros territórios caso a impunidade persista.
Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:
A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).
Na sequência, Gabriela Nabozny trouxe uma leitura estrutural a partir da advocacia popular. Ela situou os crimes da mineração em um modelo econômico baseado na extração e na financeirização, e destacou que ele produz expulsões, controle e desigualdade. “A impunidade não é para todos”, ressaltou, ao lembrar que enquanto crimes de colarinho branco raramente são punidos, as vítimas são criminalizadas, deslegitimadas e adoecidas. Para ela, associações de atingidos e movimentos populares criam fissuras nesse sistema e abrem caminho para imaginar outras formas de reparação, como as mudanças na legislação e outros modos de julgar.
Encerrando a mesa, Maria Fernanda Repolês afirmou que sua fala nasce do aprendizado construído junto à AVABRUM e a outros territórios atingidos. Ao apresentar o trabalho do Polos de Cidadania, destacou que a parceria se dá “com” os atingidos, e não “para” eles. A professora apontou que, entre Mariana e Brumadinho, as empresas aprenderam a violar direitos de forma mais eficiente, enquanto o Estado se afastou de seu papel fiscalizador.
Para ela, duas estruturas produzem impunidade de forma decisiva: o automonitoramento empresarial e os acordos judiciais. “Acordo pressupõe igualdade de armas, e aqui não há”, afirmou, ao contrastar a negociação de lucros com a negociação da própria vida. Maria Fernanda defendeu também que a responsabilização precisa ir além do dinheiro, incluir obrigações concretas, pedidos públicos de perdão e garantias reais de não repetição. “Resistir é afirmar a existência”, concluiu. O registro completo do seminário pode ser acessado neste link.
Debates que integram semana de atos pelos 7 anos da tragédia-crime da Vale reuniram familiares, acadêmicos e autoridades na Câmara Municipal de Brumadinho
Como parte da programação que marca os sete anos da tragédia-crime da Vale em Brumadinho, o Seminário Memória e Resistência por Justiça teve início nesta quinta-feira, dia 22, no auditório da Câmara Municipal. A atividade integra a semana de mobilização que já reuniu famílias atingidas e apoiadores em adesivaço, pedal, caminhada e abraço ao Córrego do Feijão.
A primeira mesa, “Da resistência à perseverança: a longa luta por justiça no Brasil”, foi conduzida por Kenya Lamounier, da diretoria da AVABRUM, e deu o tom político do encontro. Ao abrir o debate, Kenya afirmou que “é só no coletivo que a gente avança” e destacou que a união entre familiares de diferentes tragédias fortalece a luta. Em uma fala marcada pela denúncia da impunidade, definiu o cenário vivido pelas famílias como um tempo de ausência. “Não temos os nossos. Eles foram assassinados. Não temos justiça. Justiça, onde ela está? Queremos acreditar que exista, mas o que sentimos ainda é ausência.”
Na sequência, o desembargador Marcelo Pertence, do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, professor e mestre em Direito do Trabalho, trouxe uma leitura histórica sobre acidentes laborais e o papel da Justiça. Ele lembrou que o Brasil registra mais de 2.500 mortes de trabalhadores por ano e alertou que “quando se admite esse número, admite-se que tragédias ocorram”. Ao tratar da atuação institucional, afirmou que “a justiça nunca é tão justa quanto a gente imagina, mas o que não se pode admitir é que não se faça justiça”. Para Pertence, a Constituição de 1988 representou um marco ao afirmar a dignidade do trabalho, mas esse princípio ainda enfrenta resistência social. “A vida do trabalhador vale tanto quanto a do dono das ações da empresa”, disse, ao defender a preservação da vida como eixo de qualquer política de reparação.
Encerrando a mesa, a economista e professora Norma Valencio, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos, reconhecida por estudos sobre colapsos de barragens, gestão de riscos e impactos jurídicos, propôs uma mudança profunda na forma como a sociedade compreende esses eventos. Com quase 30 anos de pesquisa de campo, afirmou que “evento físico não é desastre; chuva não é desastre”. Para ela, desastres são “acontecimentos sociais que provocam uma forma súbita, inesperada e involuntária de sofrimento social” e resultam de omissões e negligências passíveis de enquadramento como crime. Norma alertou, ainda, que limitar o desastre à data do rompimento produz o apagamento da dor continuada. “O desastre não ficou em 2019. Ele é um processo de sofrimento social”, afirmou.
A segunda mesa do Seminário Memória e Resistência por Justiça, intitulada “Tragédias humanitárias e ambientais e estruturas que produzem impunidade”, aprofundou a reflexão sobre os mecanismos que permitem a repetição de crimes provocados pela mineração no Brasil. Conduzido por Edi Tavares, secretária da AVABRUM, o debate reuniu a professora Maria Fernanda Repolês, da Faculdade de Direito da UFMG e coordenadora do Programa Polos de Cidadania, e a advogada popular Gabriela Nabozny, doutoranda em Direito pela UFMG e pesquisadora de conflitos socioambientais.
Na abertura da mesa, Edi Tavares destacou o caráter contínuo da violência imposta às famílias atingidas. Ao lembrar que o seminário ocorre na Câmara Municipal, espaço onde a AVABRUM se constituiu como voz coletiva, afirmou que “essas tragédias-crime são continuadas” e que a dor “não para no dia do rompimento”. Para Edi, memória não é passado, mas compromisso com o futuro. “O silêncio e o esquecimento alimentam a repetição de crimes evitáveis”, disse, ao defender que fortalecer redes, produzir reflexão crítica e exigir justiça são deveres coletivos. Ela alertou que Mariana não impediu Brumadinho e questionou se novas sirenes voltarão a tocar em outros territórios caso a impunidade persista.
Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:
A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).
Na sequência, Gabriela Nabozny trouxe uma leitura estrutural a partir da advocacia popular. Ela situou os crimes da mineração em um modelo econômico baseado na extração e na financeirização, e destacou que ele produz expulsões, controle e desigualdade. “A impunidade não é para todos”, ressaltou, ao lembrar que enquanto crimes de colarinho branco raramente são punidos, as vítimas são criminalizadas, deslegitimadas e adoecidas. Para ela, associações de atingidos e movimentos populares criam fissuras nesse sistema e abrem caminho para imaginar outras formas de reparação, como as mudanças na legislação e outros modos de julgar.
Encerrando a mesa, Maria Fernanda Repolês afirmou que sua fala nasce do aprendizado construído junto à AVABRUM e a outros territórios atingidos. Ao apresentar o trabalho do Polos de Cidadania, destacou que a parceria se dá “com” os atingidos, e não “para” eles. A professora apontou que, entre Mariana e Brumadinho, as empresas aprenderam a violar direitos de forma mais eficiente, enquanto o Estado se afastou de seu papel fiscalizador.
Para ela, duas estruturas produzem impunidade de forma decisiva: o automonitoramento empresarial e os acordos judiciais. “Acordo pressupõe igualdade de armas, e aqui não há”, afirmou, ao contrastar a negociação de lucros com a negociação da própria vida. Maria Fernanda defendeu também que a responsabilização precisa ir além do dinheiro, incluir obrigações concretas, pedidos públicos de perdão e garantias reais de não repetição. “Resistir é afirmar a existência”, concluiu. O registro completo do seminário pode ser acessado neste link.
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