Mineiros são os mais inseguros em relação às estruturas de mineração do país, aponta pesquisa PoderData

2 de fevereiro de 2026

Levantamento revela que a população de Minas Gerais se sente mais vulnerável e acreditam que novas tragédias podem ocorrer


Depois dos rompimentos de estruturas registrados em minas da Vale em Ouro Preto e Congonhas, no último dia 25 de janeiro, data que marcou os sete anos da tragédia-crime de Brumadinho, a população mineira continua insegura em relação à estabilidade de barragens, diques e reservatórios da mineração. Pesquisa do PoderData mostrou que, em Minas Gerais, no final de 2025, essa insegurança atingiu 54% dos entrevistados, enquanto no país 45% afirmaram não se sentir seguros.

O levantamento indica ainda que, em Minas Gerais, 83% dos entrevistados acreditam que novas tragédias podem ocorrer, percentual superior ao registrado no cenário nacional, onde 68% compartilham dessa avaliação. O dado reforça a percepção de vulnerabilidade vivida no estado mais marcado por crimes associados à mineração.

Existe também descrença em relação a uma mudança de postura da Vale. Entre os entrevistados mineiros, 52% afirmaram que a mineradora tenta limpar sua imagem após as tragédias de Brumadinho e Mariana por meio de propagandas sobre proteção da Amazônia e patrocínio de eventos ambientais e culturais. Apenas 18% reconhecem a empresa como genuinamente preocupada com o meio ambiente.

Esse sentimento de insegurança ganhou materialidade nos episódios registrados na Região Central de Minas Gerais. No dia 25 de janeiro, duas estruturas da Vale se romperam em um intervalo inferior a 24 horas. Na Mina de Fábrica, em Ouro Preto, falhas no sistema de drenagem de uma cava licenciada para recebimento de rejeitos provocaram o rompimento de estruturas de contenção, com carreamento de água e sedimentos que ultrapassaram em mais de 30 vezes os parâmetros ambientais permitidos, atingiram cursos d’água e alcançaram áreas de empresas vizinhas. Em Congonhas, na Mina de Viga, o rompimento associado ao escorregamento de um talude natural excedeu a capacidade dos sistemas de controle e atingiu um córrego da região.

As ocorrências levaram inicialmente o Governo de Minas a autuar a Vale em R$ 1,7 milhão e determinar a suspensão das atividades nas minas de Fábrica e Viga, além da imposição de medidas emergenciais, como limpeza das áreas afetadas, apresentação de relatórios técnicos e elaboração de um plano de recuperação ambiental. Embora não tenha havido vítimas nem rompimento de barragens, os episódios evidenciaram danos ambientais relevantes e reforçaram a percepção de fragilidade nos mecanismos de controle e prevenção da mineração em território mineiro.

No dia 30 de janeiro, o Ministério Público Federal (MPF) solicitou à Justiça Federal o bloqueio de R$ 1 bilhão em contas da Vale, além da suspensão do direito de venda ou transferência da Mina de Fábrica e da interrupção das atividades na estrutura, onde ocorreu o rompimento no dia 25. Na mesma data, o Governo de Minas decidiu ampliar a multa aplicada à mineradora de R$ 1,7 milhão para R$ 3,3 milhões. 

O MPF também requereu a adoção imediata de medidas de segurança para evitar novos rompimentos, a reparação dos danos ambientais e a apresentação de estudos técnicos independentes sobre a estabilidade da cava e das demais estruturas do complexo minerário. O órgão também exigiu que a Vale informe, em até 72 horas, se tem mais alguma estrutura improvisada, como a que rompeu  na Mina de Fábrica.

Para a diretora da AVABRUM, Josiane Melo, as medidas revelam a gravidade do cenário. “Quando o Ministério Público pede o bloqueio de R$ 1 bilhão e estudos independentes sobre a estabilidade das estruturas, fica evidente que o risco é real e que não se trata de um episódio isolado. A população de Minas convive há anos com promessas de segurança que não se confirmam na prática”, afirma. “Nós, familiares de vítimas, reafirmamos que a indústria da mineração e os órgãos regulamentadores não aprenderam nada com Mariana e Brumadinho, onde quase 300 vidas foram ceifadas. Mais uma vez temos prova que a impunidade torna o crime recorrente”, destaca. 

Josiane ainda destaca a necessidade de fortalecer práticas que evitem novas tragédias. “Apenas a aplicação de multas não resolverá os problemas de falta de segurança de barragens e estruturas de contenção, não impedirá os impactos ao meio ambiente e muito menos salvará vidas. Precisamos atuar na cultura da prevenção”, afirma.

Os dados da pesquisa PoderData dialogam com um quadro mais amplo de desconfiança persistente dos mineiros em relação à segurança da mineração e à capacidade das instituições de evitar novos crimes. A repetição de rompimentos de estruturas, mesmo sem vítimas fatais, reforça a avaliação de que as mudanças anunciadas após 2019 não foram suficientes para eliminar riscos estruturais associados à atividade mineral no estado. 

Para a presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM), Nayara Porto, a pesquisa explicita uma cobrança objetiva da sociedade mineira. “Os dados mostram que Minas Gerais quer fiscalização efetiva e punição real. Depois de Brumadinho, a população não aceita mais discursos vazios nem falhas recorrentes. O que aconteceu em Congonhas e Ouro Preto, justamente no marco dos sete anos da tragédia-crime, reforça a urgência de uma atuação firme da ANM e do Estado para proteger vidas e territórios”, afirma.

Metodologia

A pesquisa foi realizada pelo PoderData entre os dias 27 e 30 de dezembro de 2025, com 3.200 entrevistas em 111 municípios das 27 unidades da Federação. Em Minas Gerais, foram realizadas 800 entrevistas, com reforço amostral na região de Brumadinho. O levantamento ouviu brasileiros com 16 anos ou mais, por meio de pesquisa telefônica automatizada (IVR). A margem de erro é de ±1,9 ponto percentual, com nível de confiança de 95%. A amostra foi ponderada por sexo, idade, escolaridade, renda e região.

Sobre o Projeto Legado de Brumadinho:

A AVABRUM – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego Feijão, em parceria com a CAUSAR, tem o Projeto Legado de Brumadinho como suporte de ações institucionais e na construção da memória (para que nunca mais aconteça). O Legado de Brumadinho integra os projetos do Comitê Gestor DMC (Dano Moral Coletivo).

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